Empreendedoras
contam histórias de negócios de sucesso
A designer de sapatos de luxo Izabella Suzart, a maquiadora
especialista em pele negra Mônica Reis, e a dona da primeira loja de bonecas
negras do Brasil, Jaciana Melquiades, falam sobre suas trajetórias.
Por Elisa Soupin e Jorge Soares, G1 Rio
20/11/2019 06h00 Atualizado há 3 horas
Uma designer de sapatos de luxo nascida em Madureira, a dona de
uma loja de bonecas negras de Belford Roxo, e uma maquiadora cria de Olaria,
que entrega bem mais que maquiagem em seus pincéis. Três mulheres negras, que
criam, vivem e empreendem no Rio de Janeiro e, nesse Dia da Consciência Negra,
dividem suas histórias. As três trabalham muito, mas são muito prósperas
De acordo com dados do Sebrae, as três fazem parte do total de 404
mil mulheres negras donas de negócios no estado do Rio de Janeiro. Dentro do
total de mulheres empreendedoras, as mulheres negras são 49% no estado, segundo
o estudo com dados do primeiro trimestre de 2019.
Jaciana é dona da primeira loja de bonecas negras do país e tem o sonho de produzir bonecas no estilo Barbie negras no Brasil — Foto: Jorge Soares
Jaciana Melquíades, de 36
anos, nasceu e cresceu em Belford Roxo, na Baixada Fluminense e, quando
criança, teve só duas bonecas. E uma relação bem complicada com a que mais
gostava: uma Barbie.
"Era meu sonho ter uma e eu ganhei da minha avó. Só que a
minha relação com essa boneca era uma relação de querer ser (ela). Olhar pra
ela, não me ver nela e tentar fazer coisas para ficar parecida com ela. Então
eu brincava o dia inteiro com uma toalha na cabeça, fingia que era meu
cabelo", conta ela.
Aos 22 anos, ela ganhou sua primeira boneca negra de seu
ex-marido.
"Ele costurou junto com a
mãe dele, que foi a minha primeira boneca negra. Depois a gente casou e a nossa
preocupação era: que mundo a gente vai apresentar para o nosso filho quando ele
nascer? A gente se preocupava muito com essas representações e eu aprendi a
costurar para fazer os bonecos para ele", conta
ela.
Este ano, a Era uma vez o mundo, sua loja, ganhou um espaço
físico, no Centro do Rio, se tornando a primeira loja de bonecas negras do
país.
Para o futuro de sua marca, Jaciana guarda dois sonhos: lançar uma
boneca no estilo da Barbie e ter uma fábrica em Belford Roxo, sua cidade de
origem.
Mônica dedica seu trabalho a aumentar a autoestima de mulheres negras
Foto: Cris Vicente
Maquiagem além da make
Aos 14 anos, a maquiadora especializada em pele negra Mônica Reis, hoje aos 42, nascida e
criada em Olaria, viveu uma experiência que nunca mais esqueceu.
"Eu fiz um ensaio que existia na época em um estúdio e foi o
meu primeiro trauma, eu saí de lá com a cara branca, parecia que tinha colocado
a cara na farinha e eu ouvi que 'pessoas do meu tom de pele gostam de ficar
mais claras'", diz.
Quando ela decidiu largar a carreira de 20 anos no mercado
corporativo para se dedicar ao sonho de ser maquiadora, se deparou novamente
com a questão da raça.
"Dou aula em Sesc, onde
faço um trabalho social de empoderamento através da maquiagem para mulheres
negras e periféricas e, no de Madureira, ouvi que algumas nunca usam um batom
vermelho por conta do esteriótipo da 'nêga maluca'. As mulheres negras não usam
por medo de parecerem 'nêgas malucas'. Eu incentivo muito que usem. A vida é
muito curta pra não ter coragem de usar uma cor de batom", diz.
Izabella Aurora traz a inspiração de transitar pela cidade para seus sapatos
Foto: Gustavo Wanderley
Sapato de luxo via Madureira
Izabella Aurora, de 26
anos, trânsita pela cidade: nasceu em Madureira, mora no Méier, estudou na Puc,
na Gávea e tem seu ateliê e loja de sua marca, A-Aurora, em Botafogo.
Como moradora da Zona Norte, fazia uma longa viagem diária até a
faculdade particular mais cara da cidade todos os dias quando era estudante.
"O Rio de Janeiro geograficamente já é segregador. Você
demora duas horas pra chegar na Gávea. É muito diferente de quem mora no
Leblon, desce, pega o carro e entra no estacionamento. Tem um choque de ver um
outro mundo, e estudar lá não me fazia pertencer aquele mundo. Acho que o pulo
do gato é entender que você precisa passar por determinadas estruturas para
chegar a certos lugares. Ser negro no Brasil é ter essas estratégias de
sobrevivência", diz ela.
A faculdade, aliada a uma intercâmbio em Barcelona e à inspiração
nos avós, alfaiate e costureira, fizeram Izabella se descobrir uma apaixonada
por sapatos. Os de sua marca são usados por muitas famosas e todos têm a
confecção inteiramente artesanal.
Ser carioca e circular tanto pelo Rio acaba refletido em sua
criação.
"Minha última coleção de
chama 'Margem' justamente porque ela traz esse luxo, esse poder, de um lugar
que ninguém dá nada, um subúrbio de onde ninguém está esperando um luxo ou uma
potência ou essa humanização da mulher negra líder".



